domingo, 2 de dezembro de 2018

Feitiço



A ilusão do artificial foi embora junto com lágrimas, canções, alianças e sonhos. Não mais me exaspera o futuro com suas insanas surpresas e alegorias. Os anéis atirados pela janela ou ao mar agradecem a liberdade e a banalização do que um dia já foi sagrado. A existência de imagens já não interfere na minha memória do mesmo modo que as lembranças em meu quarto tornaram-se bonitos enfeites. Uma leveza memorável pesa sobre tudo o que foi guardado ou não.
Ao lado de outro ser humano nenhuma declaração de amor permanece, porque a minha calma ainda não aprendeu a lidar com a areia movediça dos terrenos alheios. Acordei de um longo feitiço, troquei as lentes da vida e planejo mudar a cor dos cabelos.
Dia desses, num almoço solitário, eu engolia minhas quase-lágrimas com purê enquanto tocava uma música brega no telão da praça de alimentação. As lembranças me corroíam sem nenhum pudor, mas foi bom. Foi eficiente para que minhas pálpebras parassem de remoer o sal.
É pretensioso dizer que daqui nasceu um novo projeto de mim, mas é honesto mudar radicalmente as páginas do diário e escrever poemas de amor para uma moça parecida comigo. As madrugadas insones agora dormem cedo e qualquer sentimento que exista aqui dentro já não tem o mesmo nome.




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Oração à sabedoria



Peço serenidade para o meu coração e sabedoria para os dias difíceis
Pisar firme nas linhas da vida, chorar quando preciso for e ter forças para a despedida
Enxergar o espelho da alma e a dúvida que tira a calma
Aprender a silenciar, compreender o que me pesa
Flores brancas ao mar, cheiro de alfazema
As águas hão de acalmar
Terço na mão e uma vela acesa
Mais que isso, agir com inteligência
Respeitar o tempo que não tenho
Para tudo, peço:
Sabedoria, serenidade, resiliência

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Antítese



Quanto mais gritam sobre o ódio, mais entendemos sobre o amor


Quando caminhei pelo sertão até encontrar um campo florido



Quando criança eu sonhava que saía da minha casa e caminhava até parar num campo florido. É como se o mundo não tivesse fim, nem eira e nem beira. Eu sabia criar e, na qualidade de filha única, brincava sozinha. Gostava de inventar personagens e existem fotos pela casa para comprovar isso. Fui uma cigana chamada La violetera, inspirada pelo nome do pote de azeitonas; com um tecido azul fui uma deusa grega e uma atriz ganhadora do Oscar; já fui senhora idosa e agente secreta. Nesses tempos eu não conhecia o mundo, e como não podia sair de casa, deixava-me transportar pelos sonhos, livros e fantasias.
Cresci, esqueci as personagens, encantei-me por sonhos diferentes e em lugar dos campos floridos, passei a sonhar com praias noturnas e a enveredar pelos sertões de mim e do mundo. Enxergo o grito dos animais, as dores dos continentes, as alegorias das estrelas e busco entender o caráter dos corações. Viver sem máscaras dá trabalho e eu só invento para sonhar.
Até que conheci Celly, sei lá. Ela me disse para imaginar e não ter medo. Estão aqui os sertões de mim e os campos floridos da infância. No paralelo do mundo, no que ronda por aí, eu me calo por aqui... Só que na criação não tenho como me calar, a voz de mulher ecoa na aridez do mundo, porque todo ser humano precisa gritar. Quatro palavras anunciam o deserto que por aí vem. Agora o saco cheio de ar pesa sobre as minhas costas e ando com dificuldade, a insustentável leveza do ar. Há tanto que pensar, porém, estou de saco cheio.
Trocada a canção, vejo o caminho diferente. É que depois do deserto algo há de florir. O objeto agora guardado em minha blusa simboliza a gravidez de uma coisa boa, nasce pela gola, como se viesse do coração e repousa em meus braços. Sou mãe. Caminho, brinco de ciranda e ao final encontro um campo florido, onde posso sentar ao lado do meu filho imaginado e apontar para um lugar feliz.
Ao imaginar uma personagem silenciada, é preciso fazer uma força descomunal para o grito. Não há como não pensar no silêncio e eu entendo o mal estar de quem me assiste. É com essa paisagem mental que transformo energias e todos os dias o coração cria coisas diferentes. Mesmo caminhando por sertões, eu ainda sonho com campos floridos.

sábado, 13 de outubro de 2018

A cor do caráter




Revelou-se no coração
A cor do sangue, do caráter
E da palpitação
Lágrimas apagarão o incêndio
O eco da vida nasce no silêncio
Mar revolto
Ensina sobre calmaria
É preciso abraçar o amor
Para ver nascer
Mais uma vez, a luz do dia

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Da noite e do brilho



Sexta-feira à noite,
Paro para assistir ao céu
Penso estar vendo um disco voador
Observo o brilho por seguidos minutos
De repente todas as estrelas
Parecem discos voadores também