domingo, 25 de janeiro de 2026

Sombra no espelho





Sinto-me cansada, com os olhos fatigados,
pesados de noites longas, de sonhos adiados,
de tanto mirar o tempo, de tanto esperar sinais,
de tanto fingir firmeza quando já não posso mais.

Tentando enxergar ao longe o que não entendo aqui dentro,
um nó que não se desata, um labirinto sem centro,
procuro fora respostas que ecoam no meu peito,
mas o que grita em silêncio não aceita ser desfeito.

O silêncio mata e cura, porque se isso morre em mim, dele estou curada,
é veneno e é remédio, é ferida cicatrizada,
é ausência que sufoca e também devolve o chão,
é perder-se no vazio pra reencontrar a mão.

O amor sem compreensão vira uma faca amolada,
brilha antes do corte, depois deixa a carne marcada,
não grita, não avisa, só ensina pela dor
que não há abrigo onde falta escuta e calor.

O que é isso que está diante de mim
— sombra, espelho ou fim?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Uma história afetiva com A indomada e um e-mail para Aguinaldo Silva



Querido Aguinaldo, o meu nome é Laís Correia, sou professora de Língua Portuguesa e Mestra em Linguística. No momento, fiz uma cirurgia nos olhos, então desculpe se eu errar as palavras. Nasci em João Pessoa e hoje moro e trabalho em Mogeiro, no Agreste paraibano. Inclusive, no meu imaginário, Mogeiro fica perto de Greenvile.

Quero compartilhar com você a minha história afetiva com a novela A Indomada e as minhas conjecturas sobre o folhetim.

Nunca pensei que mandaria um e-mail para o autor da novela, mas me dei ao luxo dessa ousadia.

Um grande abraço para você e que o seu universo televisivo seja a cada dia mais louvado e conhecido pelas novas gerações.

Grande abraço.


Uma história afetiva com A indomada


Essa é uma história que atravessa três datas e vinte e nove anos da minha vida. Começo em 1997, com a primeira exibição da novela. Naquela época, eu tinha dois anos de idade e morria de medo do Cadeirudo. A minha avó brincava comigo, dizendo que o Cadeirudo iria me pegar. Eu tinha medo, mas não acreditava nas palavras dela, porque me sentia protegida pelos abraços que ela me dava. Nós ficávamos debaixo dos lençóis e ela gritava: “uhhh uhhhh olha Cadeirudo. Ele vai te pegar, se esconde Laisinha”.

Em 1999, com a reprise da novela no Vale a Pena ver de Novo, eu tinha cinco anos de idade e alguns trechos se instalaram para sempre nas minhas lembranças. A primeira cena que vem à mente sou eu sentada na cama da minha avó, o ventilador ligado, a janela aberta, o quarto amplo e claro e a televisão ligada. O nome A indomada não fazia sentido para mim. Indomada me lembrava tomada, limite, ou outra coisa. Do mesmo modo, a introdução da novela não era algo que eu compreendia.

O que eu gostava mesmo era da música Ciranda da rosa vermelha e a minha avó dizia que eu era o beija-flor dela. Renata Sorrah na pele de Zenilda me assustava! Eu não entendia as roupas extravagantes da personagem. Selton Mello era um querido, Grampola eu chamava de Papoula e Maria Altiva me dava medo.

Passados anos, essas memórias ficaram guardadas em lugar de muita afetividade e pouca lógica. Só que eu cresci, estudei Letras, aprendi a fazer análises linguísticas e agora, mesmo que eu não queira, cada coisa que assisto passa por algum sistema de avaliação moldado pela minha formação.  

Chegamos em 2024 e aí eu conheço a novela Tieta. Na verdade, eu confundia a imagem de Cláudia Ohana com Sônia Braga e não sabia quem tinha sido Tieta, até que eu entendi que as duas foram, mas em duas produções diferentes. Depois eu fiquei curiosa para ver a adaptação de uma obra literária e comecei a assistir à novela.

O encanto foi imenso e eu posso dizer que Tieta é a melhor novela que eu já assisti na vida, mas o foco aqui é outro. A partir daí eu fui pesquisar a obra de Agnaldo Silve e entendi que havia uma similaridade entre Tieta, A Indomada e Porto dos Milagres. Os motivos nordestinos e os arquétipos de personagens se repetem. Há um colorido e uma coisa mística nas três obras que marcam o universo de Aguinaldo. E eu não citei Senhora do Destino que eu amava com todo coração e que também assisti com a minha avó em 2004. Aqui eu faço um adendo. Na época, o meu pai resolveu se candidatar a vereador e eu minha avó o chamávamos de Reginaldo, personagem de Eduardo Moscovis.

Por fim, temos a terceira data que marca a minha relação com A Indomada: 2025. Em algum momento, conversando sobre novelas com um amigo do trabalho ele falou das vilanias de Altiva e eu pensei: está na hora de voltar às novelas. Primeiro, passei por alguns capítulos de Porto dos Milagres, porque estava procurando por alguma cena com Antônio Fagundes e Paloma Duarte que eu achava belíssima, mas que na verdade eu estava confundindo com o filme Deus é Brasileiro. De todo modo, não gostei de Adma e nem de Félix e resolvi voltar às memórias infantis com A Indomada.

Comecei a assistir e fui tentando entender o contexto em que a história se passava. O fato de a história se passar no litoral de em Pernambuco tocou em outro lugar afetivo que eu não conhecia. Sou paraibana e moro no Agreste da Paraíba, perto de cidades canavieiras de Pernambuco, de modo tal que a fuligem da queima da cana aparece no quintal e nas ruas da cidade. É como se Greenvile fosse aqui do lado, mesmo que eu esteja longe do litoral.

Sobre o enredo, entendi logo que era quase uma releitura de Tieta só que com outro enredo. Temos a cidade do interior que só é mostrada a partir da praça, uma mocinha que sonha com um príncipe encantado, um prostíbulo famoso, um homem meio louco que as pessoas não levam a sério, uma vilã caricata, dona de uma moral duvidosa e suas asseclas, um padre de vanguarda, uma protagonista forte, um homem misterioso e ambíguo e um casalzinho jovem. Pelo menos são esses os perfis que vêm à mente agora.

Além disso, temos atuações que parecem se repetir propositalmente. Ypiranga Pitiguary é o próprio Timóteo d'Alembert se fosse prefeito. A juíza Mirandinha é só mais um pouco contida do que a própria Tieta. Ana Lúcia Torre mostra uma Cleonice mais resignada do que Juracy Pitombo. A única diferença entre o padre Mariano e o padre José é a nacionalidade, sendo o segundo polonês. A trilha sonora designada aos personagens de Flávio Galvão é a mesma nas duas novelas, ou foi assim que eu percebi. José Mayer segue o padrão de homem turrão meio carinhoso de Osnar, só que dessa vez misturado com toques de Arthur da Tapitanga Filho, que o deixa com ares de vilão. Até o terço na mão fizeram questão de trazer de volta. Ary Fontoura é um Arthur da Tapitanga ainda mais misógino e cruel.

Destaco as atuações de Carla Marins, Marcos Frota, Catarina Abdala, Cláudio Marzo, Luiza Tomé, Eliane Giardine, Licurgo Spínola, Neusa Maria Borges, Selton Mello, Karla Muga, Renata Sorrah e Eva Wilma, em especial as duas últimas. Duas feras da atuação, cujos corpos foram perfeitamente moldados para a atuação. Quando elas se encontram a cena fica plena.

Eu consigo acreditar que Renata é Maria Zenilda e nada me tira isso da cabeça. Ela é Pernambucana, sim! Eva Wilma brilhou em cada cena, em cada variação de voz. Não existia Eva, existia Maria Altiva. E eu consigo ver várias Marias Altivas aqui no interior na Paraíba. Já Adriana Esteves e Flávia Alessandra ainda não estavam tão maduras. Quem conheceu Carminha e Cristina não precisa de explicações sobre o talento das duas, mas, na época, ainda faltava algum detalhe.

Por falar em Adriana, me incomoda vê-la sempre em papeis parecidos: de da mulher briguenta e forte, que não se deixa ser domada por homem. Em O Cravo e Rosa a história de A Idomada se repetia, só que no universo de Walcyr Carrasco. Queria ver uma Adriana mais leve.

Zenilda, Altiva, Scarlet, Helena, Mirandinha, Florência, Grampola e Vieira são as indomadas da novela. É injusto eleger só uma heroína quando temos tantas mulheres fortes e com o próprio jeito de viver.

Assistir à novela tem sido sobre mergulhar no mundo de Greenvile, voltar à superfície, cruzar informações e racionar enquanto a história é contada. Não importa se o buraco da praça vai parar no Japão, eu acredito. Quando as duas luas apareceram eu não consegui parar de assistir. Não me incomodei com os truques de roteiro para facilitar os desenlaces da trama. Emanoel viu a ilha em que Helena e Artêmio estavam e assim eles foram resgatados. Helena precisava das pedras preciosas, então o espírito de sua mãe Eulália as entregou. Mesmo com essas facilidades, para mim, o enredo se manteve interessante até o final. Foram muitas reviravoltas e na loucura no mundo mágico de Greenvile tudo me pareceu bem amarrado. Inclusive, é lindo acompanhar como os sentimentos vão mudando a cada capítulo.

Eu, criança, não entendia a novela, mas, eu hoje, uma mulher de 31 anos, finalmente coloquei em palavras o que a Indomada significa para mim e tudo o que vejo nela. Tieta ainda é a melhor novela do mundo, mas era a Indomada que estava passando na televisão da casa da minha avó nas tardes de 1999. A criança que tinha medo do Cadeirudo está sentada ao lado da mulher Mestra em Linguística e as duas assistem juntas. 





segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Eu tenho a faca nas mãos

 


Não tente perder o que é meu 

Não tente me ferir com o seu veneno

As coisas estão acontecendo para o meu progresso

A faca está em minhas mãos

A queda te aguarda

Para muito além do chão




terça-feira, 9 de setembro de 2025

Um grande mistério sobre o nada

 



Às vezes, o vazio da existência é chamado de conhecimento 
Se eu emparelhar os horizontes das discussões insossas que atravessam os questionamentos de ninguém 
Talvez eu ganhe um título 
Talvez eu dê uma palestra 
Talvez eu venda cursos
Talvez me digam que sei escrever 
Mas, se eu souber mexer nos silêncios 
Batucar com jeito, 
Arrematar sorrisos, 
Ensinar o bê a bá,
Dentro de mim (ou de alguém)
Algum mistério importante seja fatalmente resolvido 
Como cantam os doces sábios,
Mistério sempre há de pintar por aí







domingo, 19 de janeiro de 2025

Súbita e lenta

 



Agoniza mais uma estrela que caiu na beira do rio
Esfarela-se, treme e evapora
Derrete, sucumbe, grita e chora
Infeliz dessa estrela que em algo acreditou
Nunca lhe agradeceram pelas noites que iluminou
Pelos risos concedidos
Pelos corações que tocou
Deixaram-lhe sozinha a morrer
Entendeu ela que a queda estava programada
Data, dia e hora e marcada: 1 de janeiro 
Melhor sentir a dor
Súbita e lentamente a estrela se transformou
Está em cada pedra, em cada quintal escondido
Está entre os ingás e as juremas
No chão batido e nos espinhos
Nas pequenas ondas do rio
Fragmentos seus, remanescentes de outrora
Talvez brilhem de outro jeito rio afora
No nascer de outras eras
Quando ela, finalmente,
Se recompor

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Insólita

 




Ontem eu soube que se alguém cair em um buraco negro, já era. O jeito vai ser passar a vida inteira caindo e caindo. Ao se olhar para cima, a pessoa verá toda a história do universo. Às vezes eu fecho os olhos e vejo a minha história passando, sinto a queda e toda a repetição dos fatos já conhecidos, selados, vividos.

Vejo que, tendo caído em incontáveis buracos, só me resta apreciar a vista. Não conto os passos que me levam pelo labirinto do bairro. Tenho-me permitido afundar na cama, dormir sem pausa, comer às vezes, esvaziar a carteira de cigarros. Ao final da minha rua descobri um açude, assim como descobri que o vento que sopra das serras faz o mesmo barulho que o vento que sopra do mar. Quando andei na praia detestei, porque estava cheia de gente e eu não podia chorar.

Espero a igreja abrir para conversar com o padre. A inteligência artificial gosta de dar diagnósticos, mas não entende o que eu falo e mistura os acontecimentos. O psiquiatra dá dicas, o psicólogo escuta. A cartomante, eu não ouvi. Não quero pagar para ouvir o que já sei, não quero pagar por humilhação. Essa já se recebe de graça.

Desisti de explicações, de entendimentos, de qualquer coisa que faça um elo entre mim e o que passou. Soltei os meus barcos, queimei portos e pontes. Tento colocar tinta no cinza que restou, mas eu gosto do cinza. O cinza é de verdade.

De vez em quando lembro do teto alto e branco do hospital. Eu poderia ser paciente se quisesse, se realmente os 20 mg não segurassem esse nó atado que está aqui desde 94. A vida é o bestiário, o teste incoluto para medir as nossas forças. Augusto dos Anjos já tinha me avisado, o beijo é a véspera do escarro. O jeito é apreciar a queda - e lembrar que eu tenho jeito.



terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Queres me conhecer?





Queres me conhecer?
Sou transparente, repetitiva e angustiada. Risquei o quadro de outra vida, feiticeira no cariri. Longe dos livros, sou farsa, porque nada me resta de bom a dizer. Nada que abale a sua leitura, entende? Ainda assim, é como se não existisse outro mundo além daqui, deste corpo que agora conheço. 
Eu faço bulas e guias do meu aspecto físico e psicológico, não tem mistério. A mulher de olhos verdes, vestido vermelho e anel turquesa ao mar em noite de lua cheia, pronto. Eu só sei ser isso. Fora da folha até inventam outras narrativas. Deixe-me apagar as memórias de ontem, os meus absurdos e insistências. Deixe-me ser quantas eu precisar.
Eu tenho vergonha e por isso me apaguei e mudei os cabelos. Escuto mais, vejo mais, guardo mais de tudo. Sons e informações. Foi-se o tempo de perguntar e não achar, porque não é perguntando que se acha. Se encontra vendo e para ver é preciso calar.
E calada eu gosto de estar. Não ser vista, apenas quieta, lapidando uma novidade.
Desculpe, dessa vez eu não quero que seja bom. No final de cada texto sempre vem a conclusão que fisga. Então, que eu seja o antitexto, que eu seja a antinarrativa, a anti-história contada, o veneno na língua do povo, o colírio desta carta. Obrigada por chegar aqui, outra vez.