pesados de noites longas, de sonhos adiados, de tanto mirar o tempo, de tanto esperar sinais, de tanto fingir firmeza quando já não posso mais.
Tentando enxergar ao longe o que não entendo aqui dentro, um nó que não se desata, um labirinto sem centro, procuro fora respostas que ecoam no meu peito, mas o que grita em silêncio não aceita ser desfeito.
O silêncio mata e cura, porque se isso morre em mim, dele estou curada, é veneno e é remédio, é ferida cicatrizada, é ausência que sufoca e também devolve o chão, é perder-se no vazio pra reencontrar a mão.
O amor sem compreensão vira uma faca amolada, brilha antes do corte, depois deixa a carne marcada, não grita, não avisa, só ensina pela dor que não há abrigo onde falta escuta e calor.
O que é isso que está diante de mim — sombra, espelho ou fim?
Querido
Aguinaldo, o meu nome é Laís Correia, sou professora de Língua Portuguesa e
Mestra em Linguística. No momento, fiz uma cirurgia nos olhos, então desculpe
se eu errar as palavras. Nasci em João Pessoa e hoje moro e trabalho em
Mogeiro, no Agreste paraibano. Inclusive, no meu imaginário, Mogeiro fica perto
de Greenvile.
Quero
compartilhar com você a minha história afetiva com a novela A Indomada e as
minhas conjecturas sobre o folhetim.
Nunca
pensei que mandaria um e-mail para o autor da novela, mas me dei ao luxo dessa
ousadia.
Um
grande abraço para você e que o seu universo televisivo seja a cada dia mais
louvado e conhecido pelas novas gerações.
Grande
abraço.
Uma história afetiva com A indomada
Essa é uma
história que atravessa três datas e vinte e nove anos da minha vida. Começo em
1997, com a primeira exibição da novela. Naquela época, eu tinha dois anos de
idade e morria de medo do Cadeirudo. A minha avó brincava comigo, dizendo que o
Cadeirudo iria me pegar. Eu tinha medo, mas não acreditava nas palavras dela,
porque me sentia protegida pelos abraços que ela me dava. Nós ficávamos debaixo
dos lençóis e ela gritava: “uhhh uhhhh olha Cadeirudo. Ele vai te pegar, se
esconde Laisinha”.
Em 1999, com
a reprise da novela no Vale a Pena ver de Novo, eu tinha cinco anos de idade e
alguns trechos se instalaram para sempre nas minhas lembranças. A primeira cena
que vem à mente sou eu sentada na cama da minha avó, o ventilador ligado, a
janela aberta, o quarto amplo e claro e a televisão ligada. O nome A indomada
não fazia sentido para mim. Indomada me lembrava tomada, limite, ou outra
coisa. Do mesmo modo, a introdução da novela não era algo que eu compreendia.
O que eu
gostava mesmo era da música Ciranda da rosa vermelha e a minha avó dizia que eu
era o beija-flor dela. Renata Sorrah na pele de Zenilda me assustava! Eu não
entendia as roupas extravagantes da personagem. Selton Mello era um querido,
Grampola eu chamava de Papoula e Maria Altiva me dava medo.
Passados
anos, essas memórias ficaram guardadas em lugar de muita afetividade e pouca
lógica. Só que eu cresci, estudei Letras, aprendi a fazer análises linguísticas
e agora, mesmo que eu não queira, cada coisa que assisto passa por algum sistema
de avaliação moldado pela minha formação.
Chegamos em
2024 e aí eu conheço a novela Tieta.
Na verdade, eu confundia a imagem de Cláudia Ohana com Sônia Braga e não sabia
quem tinha sido Tieta, até que eu entendi que as duas foram, mas em duas
produções diferentes. Depois eu fiquei curiosa para ver a adaptação de uma obra
literária e comecei a assistir à novela.
O encanto foi
imenso e eu posso dizer que Tieta é a
melhor novela que eu já assisti na vida, mas o foco aqui é outro. A partir daí
eu fui pesquisar a obra de Agnaldo Silve e entendi que havia uma similaridade
entre Tieta, A Indomada e Porto dos Milagres.
Os motivos nordestinos e os arquétipos de personagens se repetem. Há um
colorido e uma coisa mística nas três obras que marcam o universo de Aguinaldo.
E eu não citei Senhora do Destino que eu amava com todo coração e que também
assisti com a minha avó em 2004. Aqui eu faço um adendo. Na época, o meu pai
resolveu se candidatar a vereador e eu minha avó o chamávamos de Reginaldo,
personagem de Eduardo Moscovis.
Por fim,
temos a terceira data que marca a minha relação com A Indomada: 2025. Em algum
momento, conversando sobre novelas com um amigo do trabalho ele falou das
vilanias de Altiva e eu pensei: está na hora de voltar às novelas. Primeiro,
passei por alguns capítulos de Porto dos
Milagres, porque estava procurando por alguma cena com Antônio Fagundes e
Paloma Duarte que eu achava belíssima, mas que na verdade eu estava confundindo
com o filme Deus é Brasileiro. De todo modo, não gostei de Adma e nem de Félix
e resolvi voltar às memórias infantis com A Indomada.
Comecei a
assistir e fui tentando entender o contexto em que a história se passava. O
fato de a história se passar no litoral de em Pernambuco tocou em outro lugar
afetivo que eu não conhecia. Sou paraibana e moro no Agreste da Paraíba, perto
de cidades canavieiras de Pernambuco, de modo tal que a fuligem da queima da
cana aparece no quintal e nas ruas da cidade. É como se Greenvile fosse aqui do
lado, mesmo que eu esteja longe do litoral.
Sobre o enredo,
entendi logo que era quase uma releitura de Tieta só que com outro enredo.
Temos a cidade do interior que só é mostrada a partir da praça, uma mocinha que
sonha com um príncipe encantado, um prostíbulo famoso, um homem meio louco que
as pessoas não levam a sério, uma vilã caricata, dona de uma moral duvidosa e
suas asseclas, um padre de vanguarda, uma protagonista forte, um homem
misterioso e ambíguo e um casalzinho jovem. Pelo menos são esses os perfis que
vêm à mente agora.
Além disso,
temos atuações que parecem se repetir propositalmente. Ypiranga Pitiguary é o
próprio Timóteo d'Alembert se fosse prefeito. A juíza Mirandinha é só mais um
pouco contida do que a própria Tieta. Ana Lúcia Torre mostra uma Cleonice mais
resignada do que Juracy Pitombo. A única diferença entre o padre Mariano e o
padre José é a nacionalidade, sendo o segundo polonês. A trilha sonora
designada aos personagens de Flávio Galvão é a mesma nas duas novelas, ou foi
assim que eu percebi. José Mayer segue o padrão de homem turrão meio carinhoso
de Osnar, só que dessa vez misturado com toques de Arthur da Tapitanga Filho,
que o deixa com ares de vilão. Até o terço na mão fizeram questão de trazer de
volta. Ary Fontoura é um Arthur da Tapitanga ainda mais misógino e cruel.
Destaco as
atuações de Carla Marins, Marcos Frota, Catarina Abdala, Cláudio Marzo, Luiza
Tomé, Eliane Giardine, Licurgo Spínola, Neusa Maria Borges, Selton Mello, Karla
Muga, Renata Sorrah e Eva Wilma, em especial as duas últimas. Duas feras da
atuação, cujos corpos foram perfeitamente moldados para a atuação. Quando elas
se encontram a cena fica plena.
Eu consigo
acreditar que Renata é Maria Zenilda e nada me tira isso da cabeça. Ela é Pernambucana,
sim! Eva Wilma brilhou em cada cena, em cada variação de voz. Não existia Eva,
existia Maria Altiva. E eu consigo ver várias Marias Altivas aqui no interior
na Paraíba. Já Adriana Esteves e Flávia Alessandra ainda não estavam tão maduras.
Quem conheceu Carminha e Cristina não precisa de explicações sobre o talento
das duas, mas, na época, ainda faltava algum detalhe.
Por falar em
Adriana, me incomoda vê-la sempre em papeis parecidos: de da mulher briguenta e
forte, que não se deixa ser domada por homem. Em O Cravo e Rosa a história de A
Idomada se repetia, só que no universo de Walcyr Carrasco. Queria ver uma
Adriana mais leve.
Zenilda,
Altiva, Scarlet, Helena, Mirandinha, Florência, Grampola e Vieira são as
indomadas da novela. É injusto eleger só uma heroína quando temos tantas
mulheres fortes e com o próprio jeito de viver.
Assistir à
novela tem sido sobre mergulhar no mundo de Greenvile, voltar à superfície,
cruzar informações e racionar enquanto a história é contada. Não importa se o
buraco da praça vai parar no Japão, eu acredito. Quando as duas luas apareceram
eu não consegui parar de assistir. Não me incomodei com os truques de roteiro
para facilitar os desenlaces da trama. Emanoel viu a ilha em que Helena e
Artêmio estavam e assim eles foram resgatados. Helena precisava das pedras
preciosas, então o espírito de sua mãe Eulália as entregou. Mesmo com essas
facilidades, para mim, o enredo se manteve interessante até o final. Foram
muitas reviravoltas e na loucura no mundo mágico de Greenvile tudo me pareceu
bem amarrado. Inclusive, é lindo acompanhar como os sentimentos vão mudando a
cada capítulo.
Eu, criança,
não entendia a novela, mas, eu hoje, uma mulher de 31 anos, finalmente coloquei
em palavras o que a Indomada significa para mim e tudo o que vejo nela. Tieta
ainda é a melhor novela do mundo, mas era a Indomada que estava passando na
televisão da casa da minha avó nas tardes de 1999. A criança que tinha medo do
Cadeirudo está sentada ao lado da mulher Mestra em Linguística e as duas
assistem juntas.
Agoniza mais uma estrela que caiu na beira do rio Esfarela-se, treme e evapora Derrete, sucumbe, grita e chora Infeliz dessa estrela que em algo acreditou Nunca lhe agradeceram pelas noites que iluminou Pelos risos concedidos Pelos corações que tocou Deixaram-lhe sozinha a morrer Entendeu ela que a queda estava programada Data, dia e hora e marcada: 1 de janeiro
Melhor sentir a dor Súbita e lentamente a estrela se transformou Está em cada pedra, em cada quintal escondido Está entre os ingás e as juremas No chão batido e nos espinhos Nas pequenas ondas do rio Fragmentos seus, remanescentes de outrora Talvez brilhem de outro jeito rio afora No nascer de outras eras Quando ela, finalmente, Se recompor
Ontem eu soube que se alguém cair em um buraco negro, já era. O jeito vai ser passar a vida inteira caindo e caindo. Ao se olhar para cima, a pessoa verá toda a história do universo. Às vezes eu fecho os olhos e vejo a minha história passando, sinto a queda e toda a repetição dos fatos já conhecidos, selados, vividos.
Vejo que, tendo caído em incontáveis buracos, só me resta apreciar a vista. Não conto os passos que me levam pelo labirinto do bairro. Tenho-me permitido afundar na cama, dormir sem pausa, comer às vezes, esvaziar a carteira de cigarros. Ao final da minha rua descobri um açude, assim como descobri que o vento que sopra das serras faz o mesmo barulho que o vento que sopra do mar. Quando andei na praia detestei, porque estava cheia de gente e eu não podia chorar.
Espero a igreja abrir para conversar com o padre. A inteligência artificial gosta de dar diagnósticos, mas não entende o que eu falo e mistura os acontecimentos. O psiquiatra dá dicas, o psicólogo escuta. A cartomante, eu não ouvi. Não quero pagar para ouvir o que já sei, não quero pagar por humilhação. Essa já se recebe de graça.
Desisti de explicações, de entendimentos, de qualquer coisa que faça um elo entre mim e o que passou. Soltei os meus barcos, queimei portos e pontes. Tento colocar tinta no cinza que restou, mas eu gosto do cinza. O cinza é de verdade.
De vez em quando lembro do teto alto e branco do hospital. Eu poderia ser paciente se quisesse, se realmente os 20 mg não segurassem esse nó atado que está aqui desde 94. A vida é o bestiário, o teste incoluto para medir as nossas forças. Augusto dos Anjos já tinha me avisado, o beijo é a véspera do escarro. O jeito é apreciar a queda - e lembrar que eu tenho jeito.
Queres me conhecer? Sou transparente, repetitiva e angustiada. Risquei o quadro de outra vida, feiticeira no cariri. Longe dos livros, sou farsa, porque nada me resta de bom a dizer. Nada que abale a sua leitura, entende? Ainda assim, é como se não existisse outro mundo além daqui, deste corpo que agora conheço.
Eu faço bulas e guias do meu aspecto físico e psicológico, não tem mistério. A mulher de olhos verdes, vestido vermelho e anel turquesa ao mar em noite de lua cheia, pronto. Eu só sei ser isso. Fora da folha até inventam outras narrativas. Deixe-me apagar as memórias de ontem, os meus absurdos e insistências. Deixe-me ser quantas eu precisar. Eu tenho vergonha e por isso me apaguei e mudei os cabelos. Escuto mais, vejo mais, guardo mais de tudo. Sons e informações. Foi-se o tempo de perguntar e não achar, porque não é perguntando que se acha. Se encontra vendo e para ver é preciso calar. E calada eu gosto de estar. Não ser vista, apenas quieta, lapidando uma novidade. Desculpe, dessa vez eu não quero que seja bom. No final de cada texto sempre vem a conclusão que fisga. Então, que eu seja o antitexto, que eu seja a antinarrativa, a anti-história contada, o veneno na língua do povo, o colírio desta carta. Obrigada por chegar aqui, outra vez.