sábado, 12 de novembro de 2016

O amor

“O Amor”,  poema de Vladimir Maiakovski.


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mensageiro beija-flor/ Poema Incidental: Sutil Vontade



Nanado Alves

Queria lha mandar um beijo
Mas não achava um portador
Pra lhe falar do meu desejo
Pra lhe dizer como eu estou 
Me comportei como criança
Que no brinquedo tropeçou
Por isso estou aqui pedindo
pra você que esta partindo passarinho voador
Nem que seja de passagem
entregue a minha mensagem
faz pra mim esse favor
Leva no bico uma canção
que tenha a mesma cor e cheiro dela
Aproveitando pergunta pra ela, meu Deus,
como é que fica o nosso amor
Do fundo do meu coração
não vivo sem a luz dos olhos dela
Explica tudo direitinho a ela, por Deus, 
meu mensageiro beija-flor.
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Poema Incidental: Sutil Vontade (Santanna) 

Ganhei uma canção branca
Como o coração teu.
Mas só que não sei cantar, 
Nem a ti posso chegar
Agora já, nesse instante,
Eu pedi ao passarinho,
Que sabe cantar bastante,
Para que leve a cantiga
Em forma de um presente
E sutilmente lhe diga,
Traduza a minha intenção.
Fazendo assim a canção
Penetrar no teu ouvido
E tocar na tua mente,
Contagiando a tu’alma
E tu, com serena calma,
Receba o recado meu.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um homem, uma mulher

Crônica de Affonso Romano de Sant'Anna


Passo por uma rua e vejo um homem e uma mulher. Não se conhecem e estão parados ao lado um do outro num ponto de ônibus. Cada um olha para um lado, distraídos, fechados em sua imaginação e problemas. Não adianta descrever-lhes as características físicas, suas classes sociais e idade - São simplesmente um homem e uma mulher. Inúteis entre si. Cada um é cada qual, cada um é cada onde, cada um é cada como, cada um é cada quando, cada um é cada. E se ignoram. Não sabem que acabei de vê-los. De vê-los no passeio do meu texto. Devem estar ali há uns desperdiçados quinze minutos, à toa. À toa como uma gazela à toa à beira do lago que não vem. À toa como um agricultor à beira do verde que não vem. À toa como o astrônomo fitando a estrela que não vem.
Esperam. Esperam o mesmo transporte. E se desconhecem profunda e urbanamente. Estão num mesmo ponto de ônibus, mas são dois pontos. Mas dois pontos pressupõem que algo vai acontecer. E dois pontos estão sempre no meio de uma sentença em construção.  Mas estes são dois pontos sem vibração. Não há sujeitos, predicados e complementos entre eles. Não se falam. Não se olham. Não se vivem. Parecem-se mais a um ponto-final. Poderiam ser um ponto de partida. Mas há algo na máquina de seus corpos estacionados que não dispara a ignição. Já nem importa se vivem na mesma rua, mesmo bairro, pois parecem morar na mesma cidade, mas nada se desencadeia entre eles. De nada adianta conferir que têm externas identidades: duas pernas, dois braços e uma faminta solidão na boca.
Se desconhecem agressivamente e não posso ajudá-los. Deveria gritar do outro lado do instante algum código que juntos decifrassem? Deveria disparar um alarme para que suas carnes se incendiassem? Deveria, sei lá, lançar um manifesto para que seus sonhos se manifestassem? Deve ser por isto que Deus às vezes manda um cometa, um profeta, um arco-íris, uma tragédia qualquer no estremecimento das ferragens e ossos. É para que os homens  convirjam num mesmo ponto, num mesmo instante e rompam a segregada solidão procriando a jubilosa parceria.
Eles estão ali como duas estátuas na mesma praça. Eles estão ali como dois colegas de escritório, sorrindo cordialidades superficiais, mas sem qualquer intimidade. Eles estão ali como dois corpos estendidos na areia do verão, queimados e lindíssimos e inutilmente apartados, embora o calor do sol os tente fundir num mesmo e luminoso orgasmo. Já estou no meio de meu olhar textual e até agora nenhum olhou para o outro. Se acontecesse, súbito, que um raio desses e filmes de ficção científica se abatesse  sobre um deles e só deixasse no chão, como resto, uma sombra, o outro jamais poderia revelar que rosto tinha o seu inútil companheiro de espera. Se alguém, súbito, sequestrasse um deles, o outro seria incapaz de contar à polícia sequer a cor de seus cabelos ou o menor sonho exposto nos olhos do que sumiu. Que terrível, que incomensurável, que intransponível a solidão no corpo de dois desconhecidos. Que triste, que aviltamento, que desperdício entre dois desconhecidos se aniquilando num duro silêncio, na mesma rua, num mesmo ponto de ônibus, na mesma companhia  inútil. Tão pungente como dois casados que durante 35 anos fizeram amor sem se amarem. Tão desvinculado como dois condenados à morte que chegam ao mesmo patíbulo  na mesma hora, por duas e inúteis trágicas estórias.
Estão distantes um do outro como dois continentes sem conteúdo. Desabitados, portanto, nas próprias paisagens. Vontade e ímpeto não me faltam de chamar agentes  de turismo e conectá-los pelo mar dos beijos, fios de paixão pelos cabelos e o vôo das mãos desembarcando, no aeroporto, afetos. Esses dois andróides vieram de diferentes galáxias. Precisam ser apresentados. Estão indo para o mesmo lugar e estão cosmicamente desamparados. Vou apresentá-los um ao outro. Quem sabe florescem? Vou pôr a mão de um na mão de outro. Quem sabe se aquecem? Vou pôr um no olho do outro. Quem sabe se enternecem? Dois corpos que antes foram nulos e foscos e se inscreveram na calçada sem estória, podem se incendiar e abrir clareiras na escura hora. Dois corpos são duas  possibilidades. E se souberem, podem entre si, num ponto do dia, desencadear a aurora.

In: Portão de escola

Vídeo: Subway Love, Max Stossel


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A minha escola



Vivi na escola sonhando em ensinar. Gostava de me imaginar ali, no lugar dos professores. Desisti de cursar Direito, me guiei por um sonho: estudar Letras. Como todas as minhas escolhas na vida, decidi estudar algo novo pra mim e antigo para o mundo: Grego e Latim. De vez em quando eu me arrependo, arranco meus cabelos, choro, enlouqueço. Mas aí eu me lembro: eu escolhi isso.
Os meus passos me levaram de volta à escola. O curso me possibilitou ensinar aquilo que mais amo: Gramática. Gramática pura, cheia de estruturas, nomes e detalhes. A cada dia me reinvento no caminho para ensinar do melhor jeito. Mas, sabe, eu comecei agora, sou “só” uma estagiária. Os alunos me olham de cima a baixo, os funcionários pensam que eu sou aluna e os professores nem me cumprimentam. Meu rosto ainda de menina é um problema. Aqueles que supervisionam meu trabalho não cansam de dizer: você é inexperiente.
E daí? Compro meus livros, coisas de Letras e de Educação. No fundo eu amo isso. Saio de casa cansada, pensando nas coisas do meu curso, mas feliz porque vou pisar numa escola. Meu primeiro emprego tem sido numa escola em que eu estudei, que loucura é vivenciar o outro lado.
Passo e vejo uma criança fantasiada de pirata, olho para o lado e uma menininha anda se arrastando pela parede. Crianças gritam pela escola e as professoras também. Os alunos do ensino médio dizem: “você é muito nova para estar aqui”, os do nono me observam passar pelos corredores, os do sétimo ano testam a minha autoridade. Sabem que não sou professora ainda, são espertos.
Com os meus alunos é diferente. Para eles eu sou a professora do reforço, e aí, sim, eles entram na linha. Mas isso de entrar na linha é só para dizer que nessas horas eles entendem que ali eu sou a professora. No final das contas é tudo uma parceria. Nós rimos, conversamos, procuro saber se eles estão bem. As notas sobem de vez em quando, e às vezes caem... Mas eu vejo uma melhora neles. Faço isso com amor.
Cumprimento os outros funcionários e eles dizem: “oi tia”. Eu penso: “oi tia? Tem outra professora aqui?” Juro que demoro a perceber que isso tudo é comigo. Ouço um aluno levar um carão, mas veja, ontem à noite foi a minha vez de levar um carão na universidade. As crianças chamam pela tia da biblioteca e sujam os corredores na hora do recreio. As criancinhas do maternal brincam e alguma delas se machuca, vejo uma professora carinhosa secando as lágrimas dessa menininha que se machucou.
Eu quis dar aula para um menino pequeno. Ele afastou as minhas mãos, não quis meus conselhos, irritou-se comigo. Ai, desculpe, professor não pode demonstrar fragilidade. E como eu não faço isso? O que eu faço com essas crianças? Meu Deus, elas vão derrubar a biblioteca. Uma professora pede respeito e recebe uma resposta desaforada. Eu olho tudo sem saber o que fazer. Hoje tem apresentação de teatro! Os meninos ficam em polvorosa, riem do namorado da atriz principal, são uns bobinhos. Ai, escola.
Eu estudo para isso? Cansa, e como cansa. Estou cansada e mal começou. Peço conselhos, observo, respiro o ambiente. Eu vivi o outro lado de um jeito intenso. Briguei, chorei, dancei, participei de jogos, fui líder nas feiras de ciências, já tirei zero e já tirei muito dez. Era dedicada e sem saber já amava a escola. Estudava querendo ensinar. Agora que já não sou aluna, eu digo: assusta. Eu mal sei me impor, que loucura é essa? Queria saber do meu futuro, queria saber aonde os meus passos vão me levar. Eu que amo essa loucura toda, vou suportá-la? Eis a escola do meu coração: eu estudei para voltar até ela. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Da arte de cuidar dos gatos


Esqueçamos, pois, a caixa de areia e tigelinha com água fresca. Vamos falar agora dos pequenos detalhes que só os donos conhecem. Primeiro de tudo, desapegue-se. Esqueça os seus objetos. A vida agora deve ser pensada para o seu gato. De repente, as coisas todas serão organizadas de modo que ele não as quebre ou danifique. E não há nada de ruim nisso.
Não se importe com o seu sofá ou com ou seu colchão, isso não é mais seu.  Cuidado com os fones de ouvido ou com os fios soltos, gatos, assim como ratos, podem roê-los. Cadarços, roupas, óculos e celulares. Cadarço solto pela casa, esqueça. Roupas, não sei, mas é sempre bom ter cuidado. Óculos e telas de celulares podem ser arranhados com facilidade, muita facilidade (É melhor não ter mais nada).
Sabe a xuxinha de cabelo? Você deve escondê-la. É sempre bom deixar o papel higiênico escondido, gatos gostam disso. Cuide para que os copos não fiquem ao alcance do bichinho, porque, não se sabe como, os gatos sentem prazer em vê-los caindo. Cuidado principalmente com os copos de vidro. Cuidado com as prateleiras. Cuidado com tudo!
Se o dono mora em apartamento, então, a coisa piora. Gatos gostam de janelas. Portanto, se a janela não tem tela de proteção, deve-se mantê-la fechada. É preciso ter cuidado para não deixar a porta aberta. E não posso me esquecer: esconda as suas bijuterias, ah, e o seu fogão também! Brincadeira! Mas é que, o gato daqui quebrou até o fogão! Não se preocupe, com o tempo, essas coisas viram parte da rotina.
         Por último e mais importante, nunca se esqueça do amor. Se não for para amá-lo, é melhor não tê-lo. Cuide, ame, proteja. Gatos, assim como todos os animais, merecem todo nosso respeito e cuidado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Arte de amar, Manuel Bandeira


Arte de amar. Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estrega o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

In: Belo belo

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Se eu quiser falar com Deus


Se eu quiser falar com Deus 
Tenho que ficar a sós 
Tenho que apagar a luz 
Tenho que calar a voz 
Tenho que encontrar a paz 
Tenho que folgar os nós 
Dos sapatos, da gravata 
Dos desejos, dos receios 
Tenho que esquecer a data 
Tenho que perder a conta 
Tenho que ter mãos vazias 
Ter a alma e o corpo nus 
Se eu quiser falar com Deus 
Tenho que aceitar a dor 
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou 
Tenho que virar um cão 
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos 
Suntuosos do meu sonho 
Tenho que me ver tristonho 
Tenho que me achar medonho 
E apesar de um mal tamanho 
Alegrar meu coração 
Se eu quiser falar com Deus 
Tenho que me aventurar 
Tenho que subir aos céus 
Sem cordas pra segurar 
Tenho que dizer adeus 
Dar as costas, caminhar 
Decidido, pela estrada 
Que ao findar vai dar em nada 
Nada, nada, nada, nada 
Nada, nada, nada, nada 
Nada, nada, nada, nada 
Do que eu pensava encontrar 

Gilberto Gil, 1980