segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Como nascem as ondas

 




Há uma boca gigante soprando no mar
Abaixo dele mãos terrosas cismam
Atiçadas pela fome do fogo
Vêm do ventre quente que se esconde da gente
De onde vibram os continentes
Na metade dos extremos
O mar de lâmina separa elementos
Às dezessete horas fica violento
Cospe espumas, desfaz terrenos
No domingo à tarde vejo-o sereno
Verde-escuro-cristalino, abraço salino
Posso, enfim, mergulhar


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Escalas

 




Tenho
A fome do cupim
A persistência da traça
A resiliência da barata
E a vontade de formiga
Cada ser com a sua grandeza


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Queimadura no prato



Quero o meu prato sem berro
Sem elo com sangue
Sem a teta desmamada, inflamada
Bicho sem couro
Casaco, pele e dor
Abracei uma galinha
Feliz de quem come capim
Já disse, quero um prato simples
Sem queimadura de onça,
Pedaço de Amazônia
Sofrimento do Pantanal
Chão seco, carvão e ozônio
Peste, pandemia, mar-plástico
Gosto de petróleo
Na barriga da tartaruga
Aquela coisa que me machuca
Aperta do pescoço do albatroz
Tem festa domingo, eles riem
Enquanto o globo terrestre gira
Nos olhos de um animal
A caminho do matadouro
E o plástico no pescoço do albatroz


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Cristal amanhecido

 



Depois do sono 
Lágrimas que deixaram de correr 
Repousam no canto dos olhos 
Dos gatos, dos cachorros, 
De quem acorda 
Cristais amanhecidos 
Às vezes amolecidos 
Peças do corpo vivo 
Transcrições biológicas de toda espécie


domingo, 11 de outubro de 2020

Homenagem


Obstinação abobada de ser reencarnação
Pontuar o sábado como a rosa da semana
Mastigar o mundo com os olhos verdes e secretos  
Desmascarar as raízes escuras da alma
Renascer como um pedaço de Deus
E debulhar uma oração em cada página