domingo, 22 de janeiro de 2017

Sinal de amor e de perigo



À noite e a cidade parece que some 
Perdida no sono dos sonhos dos homens 
Que vão construindo com fibras de vidro 
Com canções de infância, com tempo perdido
Um grande cartaz um painel de aviso
Um sinal de amor e de perigo
Um sinal de amor e de perigo
...
Há tempo em que a terra parece que some 
Em meio a alegria e tristeza dos homens
Que olham pros campos pros mares cidades 
Pras noites vazias, pra felicidade
Com o mesmo olhar de quem grita no escuro 
O melhor foi feito no futuro
O melhor foi feito no futuro
...
Enquanto o amor for pecado e o trabalho um fardo 
Pesado passado presente mal dado
As flores feridas se curam no orvalho
Mas os homens sedentos não encontram regato
Que banhe seu corpo e lave sua alma
O desejo é forte mas não salva
O desejo é forte mas não salva
...
Enquanto a tristeza esmagar o peito da terra
E a saudade afastar as pessoas partindo pra guerra
Nós vamos perdendo um tempo profundo
A força da vida o destino do mundo
O segredo que o rio entrega pra serra
Haverá um homem no céu e deuses na terra
Haverá um homem no céu e deuses na terra
Haverá um homem no céu e deuses na terra

Diana Pequeno






domingo, 15 de janeiro de 2017

Força estranha


Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino,
eu pus os meus pés no riacho.
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.
Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou.
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.
Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
Eu vi muitos homens brigando. Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta,
é a coisa mais certa de todas as coisas.
Não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.

-Caetano Veloso



domingo, 8 de janeiro de 2017

O amor e o velho barqueiro


Chegando, finalmente, à margem do grande rio, o Amor avistou três barqueiros que estavam indolentes, recostados às pedras.
Dirigiu-se ao primeiro:
- Queres, meu bom amigo, levar-me para a outra margem do rio?
Respondeu o interpelado, com voz triste, cheio de angústia:
- Não posso, menino!
É impossível para mim!
O Amor recorreu, então, ao segundo barqueiro, que se divertia em atirar pedrinhas ao seio tumultuoso da correnteza.
- Não. Não posso.
Respondeu secamente.
O terceiro e último barqueiro, que parecia o mais velho, não esperou que o Amor viesse pedir-lhe auxílio. Levantou-se tranqüilo, e, estendendo-lhe bondoso a larga mão forte, disse-lhe:
- Vem comigo, menino!
Levo-te sem demora para o outro lado.
Em meio da travessia, notando o Amor, a segurança com que o velho barqueiro navegava, perguntou-lhe:
- Quem és tu?
Quem são aqueles dois que se recusaram a atender ao meu pedido?
- Menino - respondeu paciente o bom remador, o primeiro é o Sofrimento.
O segundo é o Desprezo.
Bem sabes que o Sofrimento e o Desprezo não fazem passar o Amor.
- E tu, quem és, afinal?
 - Eu sou o Tempo, meu filho - atalhou o velho barqueiro.
- Aprende para sempre a generosa verdade.
Só o Tempo é que faz passar o Amor!
E continuou a remar, numa cadência certa, como se o movimento de seus braços possantes fosse regulado por um pêndulo invisível e eterno.
Sofrimento, Desprezo...
Que importa tudo isso ao coração apaixonado?
"O Tempo, e só o Tempo, é que faz passar o Amor."

Malba Tahan

sábado, 12 de novembro de 2016

O amor

“O Amor”,  poema de Vladimir Maiakovski.


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mensageiro beija-flor/ Poema Incidental: Sutil Vontade



Nanado Alves

Queria lha mandar um beijo
Mas não achava um portador
Pra lhe falar do meu desejo
Pra lhe dizer como eu estou 
Me comportei como criança
Que no brinquedo tropeçou
Por isso estou aqui pedindo
pra você que esta partindo passarinho voador
Nem que seja de passagem
entregue a minha mensagem
faz pra mim esse favor
Leva no bico uma canção
que tenha a mesma cor e cheiro dela
Aproveitando pergunta pra ela, meu Deus,
como é que fica o nosso amor
Do fundo do meu coração
não vivo sem a luz dos olhos dela
Explica tudo direitinho a ela, por Deus, 
meu mensageiro beija-flor.
____________________

Poema Incidental: Sutil Vontade (Santanna) 

Ganhei uma canção branca
Como o coração teu.
Mas só que não sei cantar, 
Nem a ti posso chegar
Agora já, nesse instante,
Eu pedi ao passarinho,
Que sabe cantar bastante,
Para que leve a cantiga
Em forma de um presente
E sutilmente lhe diga,
Traduza a minha intenção.
Fazendo assim a canção
Penetrar no teu ouvido
E tocar na tua mente,
Contagiando a tu’alma
E tu, com serena calma,
Receba o recado meu.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um homem, uma mulher

Crônica de Affonso Romano de Sant'Anna


Passo por uma rua e vejo um homem e uma mulher. Não se conhecem e estão parados ao lado um do outro num ponto de ônibus. Cada um olha para um lado, distraídos, fechados em sua imaginação e problemas. Não adianta descrever-lhes as características físicas, suas classes sociais e idade - São simplesmente um homem e uma mulher. Inúteis entre si. Cada um é cada qual, cada um é cada onde, cada um é cada como, cada um é cada quando, cada um é cada. E se ignoram. Não sabem que acabei de vê-los. De vê-los no passeio do meu texto. Devem estar ali há uns desperdiçados quinze minutos, à toa. À toa como uma gazela à toa à beira do lago que não vem. À toa como um agricultor à beira do verde que não vem. À toa como o astrônomo fitando a estrela que não vem.
Esperam. Esperam o mesmo transporte. E se desconhecem profunda e urbanamente. Estão num mesmo ponto de ônibus, mas são dois pontos. Mas dois pontos pressupõem que algo vai acontecer. E dois pontos estão sempre no meio de uma sentença em construção.  Mas estes são dois pontos sem vibração. Não há sujeitos, predicados e complementos entre eles. Não se falam. Não se olham. Não se vivem. Parecem-se mais a um ponto-final. Poderiam ser um ponto de partida. Mas há algo na máquina de seus corpos estacionados que não dispara a ignição. Já nem importa se vivem na mesma rua, mesmo bairro, pois parecem morar na mesma cidade, mas nada se desencadeia entre eles. De nada adianta conferir que têm externas identidades: duas pernas, dois braços e uma faminta solidão na boca.
Se desconhecem agressivamente e não posso ajudá-los. Deveria gritar do outro lado do instante algum código que juntos decifrassem? Deveria disparar um alarme para que suas carnes se incendiassem? Deveria, sei lá, lançar um manifesto para que seus sonhos se manifestassem? Deve ser por isto que Deus às vezes manda um cometa, um profeta, um arco-íris, uma tragédia qualquer no estremecimento das ferragens e ossos. É para que os homens  convirjam num mesmo ponto, num mesmo instante e rompam a segregada solidão procriando a jubilosa parceria.
Eles estão ali como duas estátuas na mesma praça. Eles estão ali como dois colegas de escritório, sorrindo cordialidades superficiais, mas sem qualquer intimidade. Eles estão ali como dois corpos estendidos na areia do verão, queimados e lindíssimos e inutilmente apartados, embora o calor do sol os tente fundir num mesmo e luminoso orgasmo. Já estou no meio de meu olhar textual e até agora nenhum olhou para o outro. Se acontecesse, súbito, que um raio desses e filmes de ficção científica se abatesse  sobre um deles e só deixasse no chão, como resto, uma sombra, o outro jamais poderia revelar que rosto tinha o seu inútil companheiro de espera. Se alguém, súbito, sequestrasse um deles, o outro seria incapaz de contar à polícia sequer a cor de seus cabelos ou o menor sonho exposto nos olhos do que sumiu. Que terrível, que incomensurável, que intransponível a solidão no corpo de dois desconhecidos. Que triste, que aviltamento, que desperdício entre dois desconhecidos se aniquilando num duro silêncio, na mesma rua, num mesmo ponto de ônibus, na mesma companhia  inútil. Tão pungente como dois casados que durante 35 anos fizeram amor sem se amarem. Tão desvinculado como dois condenados à morte que chegam ao mesmo patíbulo  na mesma hora, por duas e inúteis trágicas estórias.
Estão distantes um do outro como dois continentes sem conteúdo. Desabitados, portanto, nas próprias paisagens. Vontade e ímpeto não me faltam de chamar agentes  de turismo e conectá-los pelo mar dos beijos, fios de paixão pelos cabelos e o vôo das mãos desembarcando, no aeroporto, afetos. Esses dois andróides vieram de diferentes galáxias. Precisam ser apresentados. Estão indo para o mesmo lugar e estão cosmicamente desamparados. Vou apresentá-los um ao outro. Quem sabe florescem? Vou pôr a mão de um na mão de outro. Quem sabe se aquecem? Vou pôr um no olho do outro. Quem sabe se enternecem? Dois corpos que antes foram nulos e foscos e se inscreveram na calçada sem estória, podem se incendiar e abrir clareiras na escura hora. Dois corpos são duas  possibilidades. E se souberem, podem entre si, num ponto do dia, desencadear a aurora.

In: Portão de escola

Vídeo: Subway Love, Max Stossel


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A minha escola



Vivi na escola sonhando em ensinar. Gostava de me imaginar ali, no lugar dos professores. Desisti de cursar Direito, me guiei por um sonho: estudar Letras. Como todas as minhas escolhas na vida, decidi estudar algo novo pra mim e antigo para o mundo: Grego e Latim. De vez em quando eu me arrependo, arranco meus cabelos, choro, enlouqueço. Mas aí eu me lembro: eu escolhi isso.
Os meus passos me levaram de volta à escola. O curso me possibilitou ensinar aquilo que mais amo: Gramática. Gramática pura, cheia de estruturas, nomes e detalhes. A cada dia me reinvento no caminho para ensinar do melhor jeito. Mas, sabe, eu comecei agora, sou “só” uma estagiária. Os alunos me olham de cima a baixo, os funcionários pensam que eu sou aluna e os professores nem me cumprimentam. Meu rosto ainda de menina é um problema. Aqueles que supervisionam meu trabalho não cansam de dizer: você é inexperiente.
E daí? Compro meus livros, coisas de Letras e de Educação. No fundo eu amo isso. Saio de casa cansada, pensando nas coisas do meu curso, mas feliz porque vou pisar numa escola. Meu primeiro emprego tem sido numa escola em que eu estudei, que loucura é vivenciar o outro lado.
Passo e vejo uma criança fantasiada de pirata, olho para o lado e uma menininha anda se arrastando pela parede. Crianças gritam pela escola e as professoras também. Os alunos do ensino médio dizem: “você é muito nova para estar aqui”, os do nono me observam passar pelos corredores, os do sétimo ano testam a minha autoridade. Sabem que não sou professora ainda, são espertos.
Com os meus alunos é diferente. Para eles eu sou a professora do reforço, e aí, sim, eles entram na linha. Mas isso de entrar na linha é só para dizer que nessas horas eles entendem que ali eu sou a professora. No final das contas é tudo uma parceria. Nós rimos, conversamos, procuro saber se eles estão bem. As notas sobem de vez em quando, e às vezes caem... Mas eu vejo uma melhora neles. Faço isso com amor.
Cumprimento os outros funcionários e eles dizem: “oi tia”. Eu penso: “oi tia? Tem outra professora aqui?” Juro que demoro a perceber que isso tudo é comigo. Ouço um aluno levar um carão, mas veja, ontem à noite foi a minha vez de levar um carão na universidade. As crianças chamam pela tia da biblioteca e sujam os corredores na hora do recreio. As criancinhas do maternal brincam e alguma delas se machuca, vejo uma professora carinhosa secando as lágrimas dessa menininha que se machucou.
Eu quis dar aula para um menino pequeno. Ele afastou as minhas mãos, não quis meus conselhos, irritou-se comigo. Ai, desculpe, professor não pode demonstrar fragilidade. E como eu não faço isso? O que eu faço com essas crianças? Meu Deus, elas vão derrubar a biblioteca. Uma professora pede respeito e recebe uma resposta desaforada. Eu olho tudo sem saber o que fazer. Hoje tem apresentação de teatro! Os meninos ficam em polvorosa, riem do namorado da atriz principal, são uns bobinhos. Ai, escola.
Eu estudo para isso? Cansa, e como cansa. Estou cansada e mal começou. Peço conselhos, observo, respiro o ambiente. Eu vivi o outro lado de um jeito intenso. Briguei, chorei, dancei, participei de jogos, fui líder nas feiras de ciências, já tirei zero e já tirei muito dez. Era dedicada e sem saber já amava a escola. Estudava querendo ensinar. Agora que já não sou aluna, eu digo: assusta. Eu mal sei me impor, que loucura é essa? Queria saber do meu futuro, queria saber aonde os meus passos vão me levar. Eu que amo essa loucura toda, vou suportá-la? Eis a escola do meu coração: eu estudei para voltar até ela.