segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A rosa da semana


Sábado é a minha rosa da semana. São estrelas, conselhos, meditações, rosas e energias. Vibrações e sensações que não posso explicar. Vejo brilho em todos os cantos e ao mesmo tempo não vejo nada.
As primeiras rosas que colhi estavam num jardim cheio de pedras. Eu estava num lugar lindo, com árvores e lugares para meditar. Quando anoitecia eu guardava as estrelas dentro de mim e ia dormir feliz. Ali eu fui lua e deixei o meu coração conhecer uma felicidade que ainda não tem nome. Os domingos de missa e praia à noite eram um complemento daquilo que o sábado era.
Com medo da alegria eu fugi, e aí, a alegria fugiu de mim também. Então um presente chegou em minhas mãos outra vez. Sábado ainda é a rosa da semana. Dessa vez, era um lugar pequeno com paredes azuis. O meu coração começava a se sentir cheio, mas esse ainda não era o meu lugar.
Eu me entrego e confio. Outras flores brotaram para mim. São rosas e lírios. É possível que existam outras flores e que eu ainda não as tenha visto. Eu descobri que posso ser feliz de novo. Por muito tempo eu quis retornar ao jardim, por muito tempo eu quis voltar no tempo. Eu fechava meus olhos e acreditava que realmente voltaria... 
Não voltei, mas o meu coração está aberto e eu consigo guardar as estrelas dentro de mim, como antes. É um lugar azul, cheio de coisas invisíveis. O meu corpo não é mais o meu corpo. Há milhares de coisas além de mim, coisas com as quais eu converso. A minha dança é leve e o sorriso toma o meu rosto. Alguém segura as minhas mãos, e eu apenas escuto.
Os meus passos eu deixo numa estrada azul. Tudo o que vejo são coisas invisíveis e essas são as coisas mais lindas que eu posso enxergar. Tudo isso é quem eu fui, quem eu sou e quem eu serei. A minha essência é antiga e o meu coração é milenar. Um dia me mostraram as estrelas e eu me joguei num abismo, foi então que eu caí outra vez nessa estrada azul. Olhando para trás, eu percebo que não posso enxergar o início dessa estrada, e tudo o que sou agora, é só uma parte do caminho.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

No dia em que choveu



Um outro país, um outro lugar. Aqui estou eu, passando por entre estranhos, mas sabendo que a estranha sou eu. Vejo rostos a passar por mim. De onde são? Quem são? Não sei se são daqui ou se, assim como eu, estão só de passagem. Esse mundo não é meu.
O meu rosto é só mais na multidão. Sinais, carros, fumaça, sol e pessoas. Preciso chegar na hora. Abro a porta e você é a primeira pessoa que vejo.  Você olha pra mim e nós sorrimos. Então, seguimos em direções opostas. Quem é você? Não sei o seu nome, ou se o seu rosto aparacerá em meus sonhos algum dia. Estás de passagem? Alguém te espera em tua chegada? Continuo o meu caminho.
Ao meu redor estão livros empoeirados e um estrondo forte me assusta. São trovões. Preciso ir para algum lugar seguro. O dia antes ensolarado fica cinza e a chuva assusta. Paro em algum lugar e espero a chuva passar. Sinto o vento forte e penso que talvez eu adoeça, mas aí lembro que já estou doente. Talvez o vento até me ajude a respirar melhor. É, estou respirando melhor mesmo. Não sei de mais nada. Observo a chuva e como tudo é lindo. Não sei se são as folhas voando, ou as árvores balançando, ou a chuva. Lembro do seu rosto mais uma vez. Eu não sei nada da vida, e não sei nada da chuva, a única coisa que eu sei, é que choveu no dia em que te vi. 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Para quando ela voltar



Numa aldeia cercada de campos e montes, sem tempo e longe de tudo, um romance aconteceu. Leal é um dos personagens que viveu esse romance, a mulher que o fez sonhar foi-se embora no dia em que os dois se casariam. Ele quase enlouqueceu, quis morrer, esteve entregue à dor, de modo que hoje o seu coração quase não bate e é cheio de cicatrizes. É como um Florentino Ariza sem esperanças.
Dora é o nome da mulher que ele tanto amou. A história dos dois é antiga e acinzentada. Quando foram coloridos, tinham 16 anos de idade. Conheceram-se na escola da aldeia em que viviam. O alvoroço do primeiro amor tomou conta dos dois. Amavam com total intensidade, tudo ao redor era magia plena. Viviam esse amor em cenários quase oníricos. Tinham um caderno no qual escreviam um para o outro tudo o que sentiam. Brigavam e se adoravam. Até que os anos foram passando e Leal perdera o carinho de sempre. Dora sofria com isso. Sofria com a pressão, com as mudanças de humor, com a falta de compreensão, com a aparente frieza e com o gosto dele pela bebida.
Ela tentou conversar, tentou fazê-lo entender, pediu para que ele não bebesse tanto, mas, ele não mudou. E ela foi embora com outro. O jovem homem não assimilou a ausência e esperou que ela voltasse. Na casa em que ele havia construído para os dois, tudo era escuro. A sua fuga era o trabalho, e tudo o que ele fazia era esculpir santos e outras figuras. Até que um dia ela voltou, bateu à porta e o acordou. Surpreso, ele achou que era uma volta, mas era uma despedida. Conversaram e pela última vez se amaram com a mesma intensidade de antes. Encostado à porta, ele viu ela indo embora pela rua. Quis correr, mas não conseguia. Não sabia que seria a última vez. 
Nos dias seguintes, ele esperava que alguém batesse à porta outra vez, mas tudo era silêncio. E é aí que a saga do coração começa: foi quando ele entendeu que ela não voltaria mais. O apetite fora perdido, e os dias eram divididos entre choro e sono. Geralmente acordava de madrugada e a primeira coisa que pensava era: Dora não está mais comigo.
A pior noite foi quando sonhou com ela. Estavam os dois sozinhos numa praia deserta e enluarada. Havia um píer para o mar e vários lugares altos sobre a areia. Então ele escalou a areia e a encontrou lá, sentada, observando a enorme lua cheia. Pôde abraçá-la. Foi tão real que o rapaz acordou com os olhos cheios de lágrimas e passou a madrugada insone. Os olhos abertos no escuro da casa. Não sabia se rezava ou se morria. 
Meses passaram e a vida parecia voltar ao normal. Agora Leal queria se jogar nos braços de outras mulheres e sentir outros corpos. No entanto, sempre se lembrava de Dora. Eram os olhos azuis e grandes, os cabelos loiros, o corpo esguio, o lindo sorriso, a magia que havia em torno dela e tudo o que ela representava. Para ele, ela era o Sol da sua vida. E, perdido, entre lembranças, pintou um lindo quadro de Sol e o colocou em sua sala. Assim nunca esqueceria dela.
 Até que reencontrou o Sol numa rua da vila. Ela sorriu, mas virou o rosto e foi embora mais uma vez. Estava diferente, e parecia estar grávida! Ele não podia acreditar, que, alguns meses depois de tê-lo visitado, ela já estaria grávida! Isso precisava ser confirmado. Outra pequena morte acontecia em seu coração. Então foi conversar com as antigas amigas de Dora para saber o que havia acontecido.
Descobriu que ela havia encontrado outro amor e morava numa vila muito, muito distante. Estava de volta apenas para visitar a família. Outra vez lágrimas. Como era possível ela ter esquecido aquele amor? Era possível? Então ele escreveu uma carta para ela contando todas as suas agruras. Tinha esperança de que, se contasse tudo o que sentia, poderia esquecê-la de uma vez. A resposta veio clara e dolorida. Sim, ela era feliz. Sim, ela também havia sofrido, no entanto, já encontrara outro amor, vivia um outro momento de sua vida e realmente estava grávida! O amor antigo fora esquecido e guardado em seu devido lugar. Louco, Leal ainda escreveu outras cartas, mas não teve respostas. Respostas que ele esperou avidamente. 
Não havia mais o que fazer. Ela não voltaria nunca mais. Tudo o que lhe restava eram memórias e sonhos. Havia semanas que sonhava com ela todos os dias, acordava entre feliz e aturdido. Em outros momentos, o perfume que ela usava vinha em sua memória. Tudo o que tinha era uma caixa com fotografias, poemas, uma aliança antiga e vidros de perfume. Apenas uma caixa. Ele sabia que parecia louco e já não aguentava mais. Ele deixou outras mulheres entrarem em sua vida. Se apaixonava, gostava delas, mas sempre, sempre sentia que as estava enganando. Não achava justo ser amado e ao mesmo tempo não ter o coração livre. E assim ele sofria mais uma vez.
Acendia velas, rezava, procurava oráculos. Tudo para esquecer. Queria ser feliz e amar. Com o tempo a memória foi se acalmando, e a chama antes forte, agora era branda. Esse amor era como fogo. Às vezes ficava forte e o consumia, e às vezes o deixava em paz, mas nunca era apagado. Muitas vezes, quando passeava, não conseguia sequer esquecer as ruas pelas quais havia passeado com ela. Lembrava até do vestido florido e sentia raiva de si mesmo por lembrar e por não ter sido o homem que Dora merecia que ele fosse. Se pudesse, apagaria tudo da memória.
Deus não era justo. Como ela poderia amar alguém e ele não? Porque somente a ela foi dada a dádiva do esquecimento? O que lhe faltava para esquecer? E assim, foi se acomodando. Já estava acostumado com as pedras do peito e com o espaço sempre ocupado em seu coração. Desistiu de brigar com Deus e com o mundo, amava mesmo era a solidão. Sabia que viveria assim até o fim dos seus dias.
Um dia, viu duas crianças sozinhas na rua. Um menino, Francisco, e uma menina, Clara. Estavam sujas e assustadas. Ele conversou com elas e descobriu que eram órfãos e estavam fugindo dos maus tratos de uma tia. Vieram parar ali porque já estavam sem forças para andar. Comovido, deu abrigo para as crianças. O tempo passou e eles foram ficando. Os três foram construindo um laço de amor genuíno e em pouco tempo Leal já era chamado de pai. Faria tudo por aquelas crianças e as amava como se fossem seus filhos.
Clara não parava de olhar para o quadro de Sol. Dizia que aquele quadro a fazia lembrar de sua mãe. O que era uma surpresa para Leal, porque os meninos não conseguiam falar de suas origens. Até que disseram o nome de sua mãe: Dora. Uma mãe linda como o Sol. Ela morreu e eles ficaram sob os cuidados de uma tia, que era uma mulher terrível. Lembraram também que sua mãe falava que o verdadeiro pai deles era um homem muito bom, que era o único homem que havia amado de verdade e que estava muito longe deles. Leal apenas sorriu e pensou: de alguma forma, ela voltou. Envelheceu feliz, porém nunca mais amou uma mulher novamente.



Agora vamos ter os girassóis do fim do ano e o calor vem desumano
Tudo irá se expandir, crescer com as águas. Quiçá, amores nos corações
E um santeiro, milagreiro prevê a dor de terceiros e diz que a vida é feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar se foi com o outro
No dia em que os dois se casariam por amor
Ele aluou. Hoje o seu pesar cintila nos varais
Usou as sete vidas e não foi feliz jamais
Toda a imensidão passou pela vida e foi cair na solidão
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale pra evitar que o rancor suas ervas espalhe

Milagreiro - Djavan
               



domingo, 17 de janeiro de 2016

Uma Janela para Aurélia


Em algum lugar do interior da Paraíba vivem Aurélia e Jesuíno. Um lugar na Borborema, mistura de Cariri e Seridó. Paisagem ora seca, ora verde. Montes ao redor, céu azul quase todo dia e uma imensidão de encher os olhos.
No lugar em que vivem, as casas são próximas, formam quase uma vila. Esse lugar não é nem perto nem longe da cidade. O interior já não tem o aspecto bucólico e tranquilo de antes. Os jovens mantêm um certo brilho nos olhos, um brilho que só gente simples e feliz tem, mas já conhecem as artimanhas do mundo através da internet e perderam a inocência que seus pais tinham quando possuíam a mesma idade que eles.
Lugar em que todo mundo se conhece. Tem bar, mercearia, luz, internet e telefone. A escola fica um pouco mais longe, e a água também não é coisa muito fácil, mas eles sempre dão um jeito e todo mundo vive tranquilo a seu modo. A violência ainda não chegou ali, ainda bem.
Aurélia e Jesuíno são simples e calados. Se olham desde quando floresceram para o amor, mas nunca chegaram a ter coragem de abrir seus sentimentos. Ela anda com as amigas, fofoca, sorri, e no mais é feliz. Só que dentro dela mora uma complexidade enorme, difícil de ser explorada. A moça nunca dorme cedo, e desde que fez 16 anos adquiriu o hábito de passar as madrugadas acordada escutando alguma música. A janela do seu quarto está sempre acesa, mas, com uma certa penumbra, porque para ela não existe nada mais confortável do que a luz de um abajur. Pele morena, cabelos grandes, olhos grandes e uma cabeça pensante. Quase romântica e quase racional. Ela quer amar e o amor lhe devora nas madrugadas, quando a sua cabeça lembra de Jesuíno. Estudam juntos, e ela gasta as manhãs flutuando entre as aulas e os olhares para ele.
Jesuíno é alto, moreno e tem os cabelos cacheados. É espontâneo, sorridente, mas é leonino e sabe ser silencioso. Não deixa Aurélia perceber os seus olhares. E dentro dele ferve uma paixão por ela. Ele que já esteve com outras meninas, não a imagina de maneiras vulgares, e sem saber, está a um passo do abismo do amor. Ele é tão complexo quanto a moça por quem é apaixonado. Lê muito, e tantos assuntos variados o interessam, que ele passa horas do seu dia perdido em leituras. Filosofia, Fernando Pessoa,  política e o que mais aparecer. Os dois são figuras distintas no lugar em que vivem. A maioria dos amigos dos dois tem a cabeça nas nuvens ou em trivialidades.
Ambos moram em casas próximas e as suas famílias se conhecem desde sempre. Perto do quarto de Aurélia existe uma árvore e menina gosta de passar horas olhando para ela. Um dia, a insônia chegou em Jesuíno, e ele quis sair pelas ruas desertas do vilarejo. Estava triste, cheio de indagações e gostava de se arriscar, e nesse passeio percebeu a janela do quarto de Aurélia com uma certa luz. Aproximou-se da janela com cuidado, e percebeu a menina deitada na cama e pôde escutar um som baixinho. O coração dele acelerou...

Uma Janela para Aurélia - II


Por outro lado, Aurélia percebeu uma presença perto dela. É que na vida real, sempre é possível sentir quando alguém se aproxima. Talvez o calor, a energia, enfim. Se tem alguém perto, sempre é possível saber. E ela deitou-se na cama. E pensou: E agora, meu Deus, e agora? Preciso fechar essa janela. E como quem nada queria, sem fazer alarde, para não assustar a assombração, ou o que quer que fosse, ela levantou devagar, e fechou a janela com cuidado. Como tinha medo, não queria olhar se tinha alguém embaixo. Mas, depois de fechada a janela, atreveu-se a olhar pela a brecha, e viu a imagem de Jesuíno olhando para o céu, sentado embaixo de sua árvore preferida. Seu coração acelerou, e, para não espantar o rapaz, manteve a luz acesa e tudo como antes. Agora ela o observava e pensava: "Que danado esse menino faz aqui essa hora? Ele tá é doido". Num misto de medo e curiosidade, desejou que isso se repetisse todas as noites...
O rapaz por sua vez, não tinha certeza se ela tinha percebido ou não, mas também não quis fazer alarde ou assustá-la. “Ela pensaria que sou um louco!”. E sentou-se embaixo da árvore. No fundo, queria era estar dentro daquele quarto, compartilhando a insônia com Aurélia. E assim, ao longo dos dias, ele resolveu aproximar-se dela como quem não quer nada, pois, sentia-se arrependido por sua curiosidade. “Imagine o que ela pensaria de mim se soubesse o que fiz? Se ao menos nos tornássemos próximos...”, e ela, também quis aproximar-se. Quem sabe assim entenderia o motivo daquela presença noturna. 
       No dia seguinte o jovem ofereceu-lhe um bombom e tentou conversar sobre música. Coisa rápida, mas para os dois, aquilo já era suficiente para plantar dúvidas e curiosidades. Uma nova madrugada, e a curiosidade chegou nele: “Será que ela está acordada outra vez?”. E mais uma vez foi até ela, e ela, esperta, sentiu a presença dele. Conseguiu vê-lo por uma brecha. E então, apesar da confusão dentro de si, ela soube do amor. Quem era a caça? Quem caçava?
        De dia a amizade crescia, e de noite, Jesuíno procurava aquela janela, e a moça da janela ansiava por ele. Até que Aurélia lhe disse: - Jesuíno, eu sei que você fica em minha janela. Pare com isto, estou cansada.- O rapaz ficou pálido, sentiu o coração parar, e respondeu: -Você, você.... Por favor! Não é por mal! Desculpe! Eu não... não sei o que dizer-. -Apois não diga. Quero entender o que acontece. Eu amo você e quero você em meu quarto, e não apenas em minha janela.- E os dois conversaram muito até entenderem o que de fato acontecia durante as visitas de Jesuíno e o que fez essa história se desenrolar.
       De noite Jesuíno voltou à janela, mas, dessa vez Aurélia estava lá, olhando para a rua, à sua espera. E ele pulou a janela e estava no quarto da moça. A música ainda estava lá e pela primeira vez os dois se beijaram. O hábito de se verem continuou, e, com isso a paixão crescia. E os dois iam devagar e juntos. Era a primeira vez que amavam. Ela ainda era virgem e ele já conhecia o corpo de outras moças, mas, mesmo assim, o amor era uma novidade no coração desse rapaz. Um dia, Aurélia tirou a blusa e o sutiã, e Jesuíno, assustado e bobo, disse-lhe: Aurélia, eu sei que você nunca esteve com um homem, vamos fazer isso devagar, porque eu quero que você se acostume com um corpo masculino.- E ele ficou admirado com os seios dela. Seios perfeitos, dois semicírculos, nunca vira um par tão lindo. Para ele eram como duas luas no corpo da mulher que amava.
         Até que resolveram admitir o namoro para todo mundo. Agora ele pode entrar pela porta, mas a folia das madrugadas se perdeu. E, segundo as regras dos pais dela, ele não pode dormir lá, então, não têm mais as noites juntos. Só que de vez em quando, a saudade do começo do namoro aperta e eles combinam quando ele irá pular a janela só pela alegria de se verem quando o mundo dorme. Quando casarem, e tiverem filhos, a janela continuará ali, no coração deles. E quando dividirem o mesmo quarto, e não for preciso pular mais nada, a madrugada ainda pertencerá aos dois.


Nos braços de uma morena
Quase morro um belo dia
Ainda me lembro o meu cenário de amor
Um lampião aceso, um guarda-roupa escancarado
Um vestidinho amassado embaixo de um batom
Um copo de cerveja, uma viola na parede
E uma rede convidando a balançar
No cantinho da cama um rádio a meio volume
Cheiro de amor e de perfume pelo ar
[...]
Que tentação
Minha morena me beijando
Feito abelha
E a lua malandrinha
Pela brechinha da telha
Fotografando o meu cenário
De amor

Petrúcio Amorim. Meu cenário 



                

sábado, 16 de janeiro de 2016

Uma noite sem você


Uma estrela brilha na brecha da noite
Clareando o calabouço da minh' alma
No escuro e sem você eu perco a calma
Hora amarga que me encharca em seu açoite
A paixão me esquartejando com sua foice
E a garganta vomitando um grito rouco
Chamei tanto que eu quase fico louco
Quis mostrar um pouco do meu sentimento
Que uma noite sem você é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco.
A saudade incendiando a madrugada
No silêncio queima a chama da alegria
Inda lembro de você naquele dia
Me beijando, me dizendo que me amava
Te amei tanto que eu não imaginava
Que sozinho ficaria triste e oco
Quando o mundo me chamava eu tava mouco 
Galopando no vagão do pensamento
Que uma noite sem você é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco.

- João Linhares


-Rita Benneditto

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Noite Severina


Corre calma, severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Corre alta, severina noite
No ronco da cidade, uma janela assim acesa
Eu respiro o teu desejo
Chama no pavio da lamparina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Ali, tão sempre perto, e não me vendo
Ali sinto tua alma a flutuar do corpo
Teus olhos se movendo, sem se abrir
Ali, tão certo e justo e só ti sendo
Absinto-me de ti, mas sempre vivo
Meus olhos te movendo sem te abrir
Corre solta suassuna noite
Tocaia de animal que acompanha a sua presa
Escravo da sua beleza
Daqui a pouco o dia vai querer raiar
Daqui a pouco o dia vai querer raiar...

-Noite Severina. Lula Queiroga