sexta-feira, 29 de julho de 2016

Gotas de Sol




Quero falar agora sobre um acalento cotidiano. Nessa vida bruta, mesquinha, cheia de desalentos, existe um abraço que serve para todo mundo. É aquele abraço ameno, morno, que alivia e acalma.
São gotas de sol, gotas que abraçam o corpo no final da tarde. É o sol que não machuca a pele, é o sol que cuida, alivia e regenera. São as gotas que envolvem o corpo, é o calor que acalenta, é aquilo que desfaz o frio. É a luz que faz brotar as sementes, alimenta as plantas e acaricia os animais.
De vez em quando um gato pode ser visto deitado por aí, sentindo a luz, sendo abraçado pelo sol. Os animais sabem das coisas.
Eis o abraço livre, sempre disponível. Um banho morno no meio da rua. Se é livre, existe para os presos e para todas as retinas. Às crianças e aos idosos, a todos os animais, às células, às plantas e à vida. Para tudo, gotas de Sol. 


domingo, 20 de março de 2016

Fluxo


Acorda cedo e pega o ônibus lotado, são 40 minutos para chegar aonde quero. É de manhã e não importa se chove ou se faz calor, é tudo um inferno. É dia de estudar alemão. Wie heissen Sie? Oi? Calma. A minha idade? Ah... deixa eu ver aqui como se diz, acho que é einsundzwanzig.  Por favor, professor, não me pede pra ler esse negócio.
Tem o Timeu de Platão para traduzir. E eu entendo alguma coisa? Ah, já fez a parte de Cícero? É, eu tentei, mas não deu tempo de fazer tudo. Eu cochilei de tarde. Chego na aula e me perguntam se eu to achando difícil. Eu, ingênua balanço a cabeça, digo que sim. Escuto que estou mentindo. Um alvoroço começa na sala, todo mundo quer falar. Eu até defendo meu ponto de vista, mas sei lá, tenho preguiça, vai ver to mentindo mesmo. Quer dizer, é mentira mesmo, ok. Próximo.
Acordei enjoada hoje, não acredito. Minha cabeça tá doendo, não acredito. O que é isso? Deve ser o remédio que eu to tomando. E vamos lá outra vez. Cólicas, dores pelo corpo e, pelo meu humor, eu posso matar uma pessoa a qualquer momento. Juro que vou ficar quietinha na aula de hoje. Quando o professor disser pra eu responder mais alto eu juro que não vou dizer: tá bom, da próxima vez eu grito. Por que diabos eu disse isso? Meu Deus...
Hoje vamos aprender o Aoristo. Eu traduzo no presente ou no passado? Mas ele não é um tempo, é um aspecto. Depende. Olha, se for uma narrativa é passado, o que importa é o momento. Professor o particípio dá ideia de anterioridade, né? O particípio aoristo, ele me corrige. Tudo bem... É igual ao ablativo absoluto, que também é igual ao genitivo absoluto. O quê? Repete por favor. Quem diz que entendeu está mentindo. E eu disse que entendi. Olha eu mentindo outra vez.
Perdi três aulas essa semana por causa dos enjoos. Vou ao médico, e ele me diz que sou enjoada. Doutor, ainda bem que você não pode ler meus pensamentos, viu? Realmente eu fiquei muito enjoada, mas foi por causa desse maldito remédio que o senhor passou. Ah, existem problemas piores que o meu? E as aulas que eu perdi? Até nunca mais seu... Calma, querida, não chora. Quer saber, vou comprar umas coisas gostosas para comer e escutar Led Zeppelin, vai ajudar. Nossa, e esse tanto de coisas para arrumar aqui? É, vou ter que sair do alemão.
Que pena, eu estava gostando do professor e fazendo amizade com o pessoal da sala. Só que tem as duas extensões, e as disciplinas, e a dúvida entre Sêneca e Horácio. Pra que comprar livros sobre Marco Aurélio e depois descobrir que o cara, um imperador romano, escreveu em grego? Só pra gastar a mesada mesmo. Depois eu leio. Professor, responde meu e-mail, por favor. Então, escolha Horácio mesmo. Certo, caça aos artigos. Professor, como se traduz um partícipio futuro passivo? Como se traduz um subjuntivo? Tudo no presente. São mais de 50 formas de verbos. Ok. 
Mudou o documento do estágio, agora tem que assinar tudo de novo. Segunda esteja na coordenação. Professor querido assina aqui, por favor?  Oi, me ajuda no Latim. Bom, como está o seu levantamento? Ah, vamos ver os casos aqui. Ver tudo de novo? É, de novo... Olha você sabe bastante latim. Na outra semana: você não sabe de nada, aquilo era um ablativo absoluto. Como alguém chega no latim VI desse jeito?  Mas toma essas folhas aí, e o meu texto e faz o levantamento pra mim. Oi? Desculpa, mas não dá. Não dá mesmo. E quem é aquele rapaz passando no corredor? Acorda menina, foco.
Meus dois gatos não param de brigar. É uma agonia constante, e de repente, às três da manhã, uma amiga me liga e eu penso que o mundo acabou. Mas não acabou não, ela só não sabia que rapaz beijar. Ai que saudade desse tipo de dúvida. Amiga, olha só, eu to com dor de cabeça, minha vida tá uma bagunça, mas, beija aí quem você quiser, aproveita a vida. Amo você, beijos. E amo mesmo, o que seria da vida se não fossem os amigos?

sábado, 19 de março de 2016

Dançando com peixes


O mistério dos peixes é o mesmo mistério que mora em mim. É o meu ascendente, é a minha essência e é tudo aquilo que eu abomino com todo meu coração. É um vício louco, é uma droga, é o que me faz perder os sentidos e errar de caminho. É o mergulho mais insano e o amor mais odiado.
Etéreo, onírico, misterioso, turvo e cristalino. Toma o meu coração e faz dele o que deseja. Ilude. A única criatura que me ilude. A única criatura que consegue me enganar, a única criatura que me fere com um sorriso no rosto.
Aquela criatura que promete amor e some com a mesma rapidez com que apareceu. É aquele ser maldito que surgiu em minha vida, me encheu dos piores sentimentos e mesmo depois de ter ido embora invadiu meus sonhos, destruiu o meu ego e passou por mim com uma gargalhada infernal.
Exatamente por ser aquilo que não consigo desvendar, é o ser que mais me fascina. Meus olhos brilham quando vejo a sua dança. Quero dançar também, esqueço de tudo. E de repente, estou em sua teia outra vez. A teia de mentiras mais bem construída que já observei. Nesses mergulhos eu vivi as histórias mais estranhas de que posso me lembrar.
Ópio, vinho, ódio, ilusão. Os piores medos, a maiores angústias, as grandes ilusões, as maiores dores. Meu reflexo nas águas, meu maior oponente. Tudo se afoga dentro de mim. Eu não quero mergulhar de novo, eu tenho medo. O canto da sereia me chama outra vez, mas eu sei de tudo o que acontece, também sou filha das águas. Minha essência é escorpiana, não se engane com a minha balança. Com tanto ódio por um signo, eu não posso acreditar no seu oposto. Eu só não sei por que o destino insiste em me fazer mergulhar de novo.  

domingo, 6 de março de 2016

Chuva para dois


Um casal desses que a gente vê pelas paradas de ônibus, numa moto, num passeio no shopping, andando pelas ruas do centro da cidade e até na sala de uma faculdade. Eles moram numa casa simples no Rangel. Foi a casa que puderam comprar.
A vida sempre difícil os levou para caminhos distintos daqueles que sonharam. Só o amor dos dois alivia as desilusões da vida. Sair da casa dos pais para morar juntos foi a coisa mais audaciosa que fizeram, e a melhor. A vida é difícil e o dinheiro só é suficiente para as contas primordiais. Querem ter profissões diferentes e morar em outro bairro. Comprar uma casa bem maior não seria mal. Enquanto isso não acontece eles sonham e lutam.
A volta do trabalho é uma das piores partes do dia: ônibus lotado, gente suada e um aperto infernal. De vez em quando Kayllany olha pela janela e sente inveja dos carros ao lado. Dane-se o trânsito, bom mesmo é estar sentada dentro de um automóvel e não nesse aperto. Enquanto isso, Denilson pilota a sua moto e cruza entre os carros querendo chegar na faculdade na hora.
Depois das aulas na faculdade, os dois chegam em casa. Cansados, só querem dormir, mas, o amor não dorme. Apesar das dificuldades, nada supera a felicidade de pôr os pés em casa depois de um dia exaustivo, mesmo quando o teto é de telha, as paredes são finas e os móveis são simples. O importante mesmo é ter um lar acolhedor.
Bonito é quando chove. É possível que as gotas da chuva sejam sentidas mesmo dentro de casa. São pingos finos e discretos.  Nas madrugadas chuvosas, o corpo de quem se ama parece adquirir novos contornos de desejo, principalmente debaixo de um lençol quente. O único lugar para se abrigar é no corpo um do outro. Para eles, não há nada melhor do que dormir aquecidos num abraço infinito, ainda que sintam os pingos da chuva.
Parece até que a casa simples deixa as coisas surpreendentemente mais bonitas. Não fossem as telhas, o abraço não teria tanta graça. Quando amanhece o quarto fica num tom de azul que não posso explicar. As cores e sensações que moram nessa simplicidade são únicas.
Já são cinco da manhã e lá fora está frio. O orvalho pode ser sentido mesmo com a janela fechada e aí eles precisam despertar. Os pássaros cantam lá fora, mas dentro do quarto os corpos ainda se procuram. Luz azul, frio, orvalho, amanhecer, pássaros cantando e o amor sonolento dos casais que se amam. O dia chama, eles precisam trabalhar. Janela aberta, clima da madrugada e café da manhã. A casa é simples, mas guarda em si uma magia que só o amor desvenda.  

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A rosa da semana


Sábado é a minha rosa da semana. São estrelas, conselhos, meditações, rosas e energias. Vibrações e sensações que não posso explicar. Vejo brilho em todos os cantos e ao mesmo tempo não vejo nada.
As primeiras rosas que colhi estavam num jardim cheio de pedras. Eu estava num lugar lindo, com árvores e lugares para meditar. Quando anoitecia eu guardava as estrelas dentro de mim e ia dormir feliz. Ali eu fui lua e deixei o meu coração conhecer uma felicidade que ainda não tem nome. Os domingos de missa e praia à noite eram um complemento daquilo que o sábado era.
Com medo da alegria eu fugi, e aí, a alegria fugiu de mim também. Então um presente chegou em minhas mãos outra vez. Sábado ainda é a rosa da semana. Dessa vez, era um lugar pequeno com paredes azuis. O meu coração começava a se sentir cheio, mas esse ainda não era o meu lugar.
Eu me entrego e confio. Outras flores brotaram para mim. São rosas e lírios. É possível que existam outras flores e que eu ainda não as tenha visto. Eu descobri que posso ser feliz de novo. Por muito tempo eu quis retornar ao jardim, por muito tempo eu quis voltar no tempo. Eu fechava meus olhos e acreditava que realmente voltaria... 
Não voltei, mas o meu coração está aberto e eu consigo guardar as estrelas dentro de mim, como antes. É um lugar azul, cheio de coisas invisíveis. O meu corpo não é mais o meu corpo. Há milhares de coisas além de mim, coisas com as quais eu converso. A minha dança é leve e o sorriso toma o meu rosto. Alguém segura as minhas mãos, e eu apenas escuto.
Os meus passos eu deixo numa estrada azul. Tudo o que vejo são coisas invisíveis e essas são as coisas mais lindas que eu posso enxergar. Tudo isso é quem eu fui, quem eu sou e quem eu serei. A minha essência é antiga e o meu coração é milenar. Um dia me mostraram as estrelas e eu me joguei num abismo, foi então que eu caí outra vez nessa estrada azul. Olhando para trás, eu percebo que não posso enxergar o início dessa estrada, e tudo o que sou agora, é só uma parte do caminho.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

No dia em que choveu



Um outro país, um outro lugar. Aqui estou eu, passando por entre estranhos, mas sabendo que a estranha sou eu. Vejo rostos a passar por mim. De onde são? Quem são? Não sei se são daqui ou se, assim como eu, estão só de passagem. Esse mundo não é meu.
O meu rosto é só mais na multidão. Sinais, carros, fumaça, sol e pessoas. Preciso chegar na hora. Abro a porta e você é a primeira pessoa que vejo.  Você olha pra mim e nós sorrimos. Então, seguimos em direções opostas. Quem é você? Não sei o seu nome, ou se o seu rosto aparacerá em meus sonhos algum dia. Estás de passagem? Alguém te espera em tua chegada? Continuo o meu caminho.
Ao meu redor estão livros empoeirados e um estrondo forte me assusta. São trovões. Preciso ir para algum lugar seguro. O dia antes ensolarado fica cinza e a chuva assusta. Paro em algum lugar e espero a chuva passar. Sinto o vento forte e penso que talvez eu adoeça, mas aí lembro que já estou doente. Talvez o vento até me ajude a respirar melhor. É, estou respirando melhor mesmo. Não sei de mais nada. Observo a chuva e como tudo é lindo. Não sei se são as folhas voando, ou as árvores balançando, ou a chuva. Lembro do seu rosto mais uma vez. Eu não sei nada da vida, e não sei nada da chuva, a única coisa que eu sei, é que choveu no dia em que te vi. 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Para quando ela voltar



Numa aldeia cercada de campos e montes, sem tempo e longe de tudo, um romance aconteceu. Leal é um dos personagens que viveu esse romance, a mulher que o fez sonhar foi-se embora no dia em que os dois se casariam. Ele quase enlouqueceu, quis morrer, esteve entregue à dor, de modo que hoje o seu coração quase não bate e é cheio de cicatrizes. É como um Florentino Ariza sem esperanças.
Dora é o nome da mulher que ele tanto amou. A história dos dois é antiga e acinzentada. Quando foram coloridos, tinham 16 anos de idade. Conheceram-se na escola da aldeia em que viviam. O alvoroço do primeiro amor tomou conta dos dois. Amavam com total intensidade, tudo ao redor era magia plena. Viviam esse amor em cenários quase oníricos. Tinham um caderno no qual escreviam um para o outro tudo o que sentiam. Brigavam e se adoravam. Até que os anos foram passando e Leal perdera o carinho de sempre. Dora sofria com isso. Sofria com a pressão, com as mudanças de humor, com a falta de compreensão, com a aparente frieza e com o gosto dele pela bebida.
Ela tentou conversar, tentou fazê-lo entender, pediu para que ele não bebesse tanto, mas, ele não mudou. E ela foi embora com outro. O jovem homem não assimilou a ausência e esperou que ela voltasse. Na casa em que ele havia construído para os dois, tudo era escuro. A sua fuga era o trabalho, e tudo o que ele fazia era esculpir santos e outras figuras. Até que um dia ela voltou, bateu à porta e o acordou. Surpreso, ele achou que era uma volta, mas era uma despedida. Conversaram e pela última vez se amaram com a mesma intensidade de antes. Encostado à porta, ele viu ela indo embora pela rua. Quis correr, mas não conseguia. Não sabia que seria a última vez. 
Nos dias seguintes, ele esperava que alguém batesse à porta outra vez, mas tudo era silêncio. E é aí que a saga do coração começa: foi quando ele entendeu que ela não voltaria mais. O apetite fora perdido, e os dias eram divididos entre choro e sono. Geralmente acordava de madrugada e a primeira coisa que pensava era: Dora não está mais comigo.
A pior noite foi quando sonhou com ela. Estavam os dois sozinhos numa praia deserta e enluarada. Havia um píer para o mar e vários lugares altos sobre a areia. Então ele escalou a areia e a encontrou lá, sentada, observando a enorme lua cheia. Pôde abraçá-la. Foi tão real que o rapaz acordou com os olhos cheios de lágrimas e passou a madrugada insone. Os olhos abertos no escuro da casa. Não sabia se rezava ou se morria. 
Meses passaram e a vida parecia voltar ao normal. Agora Leal queria se jogar nos braços de outras mulheres e sentir outros corpos. No entanto, sempre se lembrava de Dora. Eram os olhos azuis e grandes, os cabelos loiros, o corpo esguio, o lindo sorriso, a magia que havia em torno dela e tudo o que ela representava. Para ele, ela era o Sol da sua vida. E, perdido, entre lembranças, pintou um lindo quadro de Sol e o colocou em sua sala. Assim nunca esqueceria dela.
 Até que reencontrou o Sol numa rua da vila. Ela sorriu, mas virou o rosto e foi embora mais uma vez. Estava diferente, e parecia estar grávida! Ele não podia acreditar, que, alguns meses depois de tê-lo visitado, ela já estaria grávida! Isso precisava ser confirmado. Outra pequena morte acontecia em seu coração. Então foi conversar com as antigas amigas de Dora para saber o que havia acontecido.
Descobriu que ela havia encontrado outro amor e morava numa vila muito, muito distante. Estava de volta apenas para visitar a família. Outra vez lágrimas. Como era possível ela ter esquecido aquele amor? Era possível? Então ele escreveu uma carta para ela contando todas as suas agruras. Tinha esperança de que, se contasse tudo o que sentia, poderia esquecê-la de uma vez. A resposta veio clara e dolorida. Sim, ela era feliz. Sim, ela também havia sofrido, no entanto, já encontrara outro amor, vivia um outro momento de sua vida e realmente estava grávida! O amor antigo fora esquecido e guardado em seu devido lugar. Louco, Leal ainda escreveu outras cartas, mas não teve respostas. Respostas que ele esperou avidamente. 
Não havia mais o que fazer. Ela não voltaria nunca mais. Tudo o que lhe restava eram memórias e sonhos. Havia semanas que sonhava com ela todos os dias, acordava entre feliz e aturdido. Em outros momentos, o perfume que ela usava vinha em sua memória. Tudo o que tinha era uma caixa com fotografias, poemas, uma aliança antiga e vidros de perfume. Apenas uma caixa. Ele sabia que parecia louco e já não aguentava mais. Ele deixou outras mulheres entrarem em sua vida. Se apaixonava, gostava delas, mas sempre, sempre sentia que as estava enganando. Não achava justo ser amado e ao mesmo tempo não ter o coração livre. E assim ele sofria mais uma vez.
Acendia velas, rezava, procurava oráculos. Tudo para esquecer. Queria ser feliz e amar. Com o tempo a memória foi se acalmando, e a chama antes forte, agora era branda. Esse amor era como fogo. Às vezes ficava forte e o consumia, e às vezes o deixava em paz, mas nunca era apagado. Muitas vezes, quando passeava, não conseguia sequer esquecer as ruas pelas quais havia passeado com ela. Lembrava até do vestido florido e sentia raiva de si mesmo por lembrar e por não ter sido o homem que Dora merecia que ele fosse. Se pudesse, apagaria tudo da memória.
Deus não era justo. Como ela poderia amar alguém e ele não? Porque somente a ela foi dada a dádiva do esquecimento? O que lhe faltava para esquecer? E assim, foi se acomodando. Já estava acostumado com as pedras do peito e com o espaço sempre ocupado em seu coração. Desistiu de brigar com Deus e com o mundo, amava mesmo era a solidão. Sabia que viveria assim até o fim dos seus dias.
Um dia, viu duas crianças sozinhas na rua. Um menino, Francisco, e uma menina, Clara. Estavam sujas e assustadas. Ele conversou com elas e descobriu que eram órfãos e estavam fugindo dos maus tratos de uma tia. Vieram parar ali porque já estavam sem forças para andar. Comovido, deu abrigo para as crianças. O tempo passou e eles foram ficando. Os três foram construindo um laço de amor genuíno e em pouco tempo Leal já era chamado de pai. Faria tudo por aquelas crianças e as amava como se fossem seus filhos.
Clara não parava de olhar para o quadro de Sol. Dizia que aquele quadro a fazia lembrar de sua mãe. O que era uma surpresa para Leal, porque os meninos não conseguiam falar de suas origens. Até que disseram o nome de sua mãe: Dora. Uma mãe linda como o Sol. Ela morreu e eles ficaram sob os cuidados de uma tia, que era uma mulher terrível. Lembraram também que sua mãe falava que o verdadeiro pai deles era um homem muito bom, que era o único homem que havia amado de verdade e que estava muito longe deles. Leal apenas sorriu e pensou: de alguma forma, ela voltou. Envelheceu feliz, porém nunca mais amou uma mulher novamente.



Agora vamos ter os girassóis do fim do ano e o calor vem desumano
Tudo irá se expandir, crescer com as águas. Quiçá, amores nos corações
E um santeiro, milagreiro prevê a dor de terceiros e diz que a vida é feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar se foi com o outro
No dia em que os dois se casariam por amor
Ele aluou. Hoje o seu pesar cintila nos varais
Usou as sete vidas e não foi feliz jamais
Toda a imensidão passou pela vida e foi cair na solidão
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale pra evitar que o rancor suas ervas espalhe

Milagreiro - Djavan